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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

sobre como lugares estranhos se tornam familiares










Frames do filme " L'auberge espagnole", de Cédric Klapisch

sábado, 31 de maio de 2014

não sei como começar

parado
em frente a estação de trem
esperando coragem
ouço ao longe, os trens se aproximam e logo se vão
sei que antes de entrar, tenho muito o que fazer
colocar ordem a todo um caos que criei
não sei como começar



em movimento
dentro da estação, ando de um lado para o outro
sei muito bem onde tenho que ir
esperando coragem
cada uma das minhas prioridades é um trem
cada trem, um destino diferente
distantes entre si
e quando entro em um deles, o escolho
dizendo não para todos os outros
dizendo no mínimo até logo
para alguns, dizendo adeus

sentado
plataforma 6, vagão 3, assento 28
e eu sempre soube que a escolha seria essa
o que eu não sabia era como começar
ainda não sei
estranho estar dentro desse trem
agora todos os outros parecem tão atraentes
ilusão de ótica, medo de assumir as próprias escolhas
medo do que pode acontecer com o caos instaurado no status quo
caos que já tem sua própria ordem
caos que estará no mesmo lugar quando esse trem fizer seu retorno

em movimento...




sexta-feira, 11 de abril de 2014

rua da bahia - mapa de memória, mapa de vivência, mapa de presença, mapa de ausência

coordenada nº 01.02 
pedimos a porção de batatas, mas não conseguimos comê-la toda
subimos no bar com cheiro estranho, pela escada rolante parada
não gostava de cerveja, vodka me apetecia

coordenada nº 01.03
num domingo onde a cidade estava fechada
poucos bares se mantinham, esse era um deles
e do happy hour resultou 9 garrafas vazias
já que mais tarde, um novo ente apareceu

coordenada nº 02.02
a tardinha, desci a rua cantante e quase dançante
cheguei até a praça cujos bancos não tem encosto, onde alguém me esperava e me via descer
"minha vida é essa, subir bahia e descer floresta"

coordenada nº 01.04
já noite, num dia em que descia tarde do trabalho, cansado
encontrei vários amigos, sentados
as mesas estavam todas cheias, foi difícil conseguir uma cadeira

coordenada nº 01.05
com os novos então conhecidos
descemos e paramos na igreja
é bom apresentar as belezas da cidade aos turistas

coordenada nº 02.02
um dia cheio de acontecimentos
terminou com um filme no castelinho
filme estranho pacas

coordenada nº 02.03
difícil decidir entre o doce e o amargo
preferi o que já conheço de longa data

coordenada nº 01.07
com a garrafa de vodka, o copo deixei em casa
ia para a primeira balada após 18 anos
as luzes estavam um tom mais saturadas

hoje desci todas as coordenadas do mapa
me vi em várias das pessoas
e ao mesmo tempo me perguntei onde estou
e onde estão todas essas pessoas que estiveram comigo
quando eu habitava essas coordenadas
onde estamos?
onde estou e onde estamos?
onde?



sexta-feira, 28 de março de 2014

relógio

na rua
os homens estão munidos com seus relógios
sempre no pulso
olham uma vez, duas, quinze
quinze para as sete
estamos todos mais atrasados que o coelho da Alice
numa relação de dominador e dominado com o tempo

entretanto
ao parar qualquer um desses homens atrasados
interromper sua pressa em chegar a algum lugar
e pergunta-lo o que é o tempo
nenhum deles saberá responder

seus relógios no pulso, sua algema com o tempo
algemados com um eterno desconhecido


sábado, 1 de fevereiro de 2014

roda gigante

do alto eu vejo
mas de repente desço

subi enquanto estava de costas
e o momento em que passei no alto, foi eterno
quase um segundo
mas um segundo eterno

senti os braços
um abraço
vi toda a cidade, acesa
acesas as luzes e não a cidade
acesa a cidade por meio das luzes
acesa, eu vi
a cidade

e eu, que até certa idade tinha medo de altura
sem perceber, lidei muito bem com a situação
achei que ia fechar os olhos enquanto estivesse no alto
mas quando cheguei lá
tudo que eu queria era manter meus olhos abertos
inconscientemente minhas pupilas dilataram

subi e desci várias vezes
enquanto girava a roda gigante
anti-horário era o sentido
as vezes parecia que eu estava parado
e o que girava era tudo que estava em volta
não eu
e sim, tudo girava em torno de mim

no fim, já não tinha certeza de quem girava
se era eu, a roda gigante, tudo ao redor
ou todas as opções
e mesmo sem saber, qual das opções era a verdadeira
quis estar ali por mais tempo
quis mais do que um eterno segundo




sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

coincidências banais

de todos nós que aqui estamos
78 vieram com o mesmo objetivo
34 pelo mesmo caminho
na bolsa de 56 havia exatamente a mesma quantidade de canetas

se somarmos a quantia em dinheiro que trago hoje e a que eu trazia semana passada, teremos o mesmo valor que 7 deles tem hoje no bolso

ao finalizar as atividades, 18 vão direto pra casa
2 a pé, 6 de carro e 8 de ônibus
mas dentre essas pessoas, 3 mudaram de ideia no meio do caminho
dentre os meninos, 29 tem cachorro em casa e 8 deles se intitulam dono do animal

de todos nós, 87% já havia visto algum outro integrante antes desse momento, passando na rua ou em algum evento
mas como não conhecia, não gravou o rosto
pensam que se conheceram agora
mas não

22 de nós, pesa 64 kilos
desses 22, apenas 8 estão satisfeito com seu peso

3 de nós assistiu um filme ontem
desses 3, eu sou um
você é outro
desses três, dois saíram do cinema mais felizes que entraram
eu e você


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

sentidos

o sentido do deslocamento é determinado pelo desejo primeiro
de se deslocar
e agora que sei onde estou, o lugar algum
ando ando ando ando ando
para ouvir de novo seu canto
saí
de um lugar comum
passei por vários não-lugares
porque só me lembrava do lugar de onde saí
e do lugar pra onde vou

o sentido dos sentidos é determinado pelo desejo segundo
de sentir
e quando se sente, nasce por dentro o desejo
que não se pode controlar
e o desejo altera a visão, o olfato, o paladar, o tato e a memória
todos ao mesmo tempo
me faz lembrar de lugares
de rostos e palavras
sem nenhuma precisão de detalhes
e com toda precisão de sensações

sinto
com todos os meus sentidos
não sei mais onde te guardar
dentro de mim
suas canções me ajudam a estar cada vez mais perto de ti




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

desplazar

existe um verbo
e a representação de um movimento
corpo, espaço e tempo
sempre os mesmos

mas me esqueci daquilo que era mínimo
que desplazar necessita primeiro estar
estar em lugar algum
para depois estar em algum lugar


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

manifesto nº18 (da distância)

todos os processos geram distância

e quando me aproximo, me distancio
ao mesmo tempo
e se volto
me distancio duplamente, porque daquilo que me afastei, não consigo me aproximar de novo
e para tentar alcançar aquilo que era distância, me distancio de outros
é como um jogo cheio de peças magnéticas
que se atraem e se repelem e se atraem
e para minha polaridade atrair algo ela precisa repelir algo

estou no porto, a espera
daquele veleiro que vem me buscar
me levar para perto e para longe
ao mesmo tempo
um veleiro chamado antítese

num universo cheio de coincidências tempo-espaciais
que nunca se repetirão, porque estão muito distantes entre si
quando faço uma escolha e me aproximo da certeza
me distancio da dúvida
me distancio dos que acreditavam na segunda opção

o veleiro que me leva
me leva para longe
mas se decido ficar aqui, perto
continuo estando longe na mesma