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quarta-feira, 2 de julho de 2014

meu coração está entre aspas

abre aspas

meu coração está entre aspas
ele é uma citação de algo poético,
que seu ouviu algum dia, em algum lugar
do poema, nada se lembra
mas foi algo que agradou aos ouvidos

meu coração está entre aspas
porque é irônico
ironiza consigo mesmo
e como se fosse possível (e é)
faz sofrer a si mesmo

meu coração está entre aspas
necessita todos os dias ser e estar
necessita todos os dias rir e chorar
necessita, sobretudo
em cada lagrima ou sorriso, um desabafo

meu coração está entre aspas
ele é uma colagem de fragmentos
alguns de própria autoria, outros não
busca respostas em meio ao vale de incertezas
as respostas atravessam suas artérias tão rápido que ele não consegue segurar
ele continua no vale

meu coração está entre aspas
meu coração está
meu coração
meu

fecha aspas





sexta-feira, 11 de abril de 2014

rua da bahia - mapa de memória, mapa de vivência, mapa de presença, mapa de ausência

coordenada nº 01.02 
pedimos a porção de batatas, mas não conseguimos comê-la toda
subimos no bar com cheiro estranho, pela escada rolante parada
não gostava de cerveja, vodka me apetecia

coordenada nº 01.03
num domingo onde a cidade estava fechada
poucos bares se mantinham, esse era um deles
e do happy hour resultou 9 garrafas vazias
já que mais tarde, um novo ente apareceu

coordenada nº 02.02
a tardinha, desci a rua cantante e quase dançante
cheguei até a praça cujos bancos não tem encosto, onde alguém me esperava e me via descer
"minha vida é essa, subir bahia e descer floresta"

coordenada nº 01.04
já noite, num dia em que descia tarde do trabalho, cansado
encontrei vários amigos, sentados
as mesas estavam todas cheias, foi difícil conseguir uma cadeira

coordenada nº 01.05
com os novos então conhecidos
descemos e paramos na igreja
é bom apresentar as belezas da cidade aos turistas

coordenada nº 02.02
um dia cheio de acontecimentos
terminou com um filme no castelinho
filme estranho pacas

coordenada nº 02.03
difícil decidir entre o doce e o amargo
preferi o que já conheço de longa data

coordenada nº 01.07
com a garrafa de vodka, o copo deixei em casa
ia para a primeira balada após 18 anos
as luzes estavam um tom mais saturadas

hoje desci todas as coordenadas do mapa
me vi em várias das pessoas
e ao mesmo tempo me perguntei onde estou
e onde estão todas essas pessoas que estiveram comigo
quando eu habitava essas coordenadas
onde estamos?
onde estou e onde estamos?
onde?



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

similaridade e padrões

do mundo real, tudo que vejo são conjuntos
suas interseções, diferenças, uniões e subconjuntos
e sem perceber, fui inserido no subconjunto x
do qual estou sem precisar querer estar

na rua desse mundo real e nos lugares comuns
as pessoas andam com uns tais rótulos
seja pendurado no pescoço, seja escrito na testa, seja desenhado na camisa
e um magnetismo atraí pessoas de rótulos similares

na porta de cada estabelecimento
existe um filtro
ele tem um padrão que é completado com o seu negativo
as vezes diferentes negativos completam o padrão
mas gera desconforto

a cada geração, as convenções mudam
as vezes apenas se reforça o que existe
as vezes se criam outras
mas a lógica de seleção com base em padrões
é hereditária


sábado, 1 de fevereiro de 2014

roda gigante

do alto eu vejo
mas de repente desço

subi enquanto estava de costas
e o momento em que passei no alto, foi eterno
quase um segundo
mas um segundo eterno

senti os braços
um abraço
vi toda a cidade, acesa
acesas as luzes e não a cidade
acesa a cidade por meio das luzes
acesa, eu vi
a cidade

e eu, que até certa idade tinha medo de altura
sem perceber, lidei muito bem com a situação
achei que ia fechar os olhos enquanto estivesse no alto
mas quando cheguei lá
tudo que eu queria era manter meus olhos abertos
inconscientemente minhas pupilas dilataram

subi e desci várias vezes
enquanto girava a roda gigante
anti-horário era o sentido
as vezes parecia que eu estava parado
e o que girava era tudo que estava em volta
não eu
e sim, tudo girava em torno de mim

no fim, já não tinha certeza de quem girava
se era eu, a roda gigante, tudo ao redor
ou todas as opções
e mesmo sem saber, qual das opções era a verdadeira
quis estar ali por mais tempo
quis mais do que um eterno segundo




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

outono distante

a quatro meses atrás
estava no topo de uma montanha
não lembrava como havia chegado até lá
mas me foi dito que era hora de descer

durante longas nove horas
enfrentei esse árduo caminho
com demasiado peso nas costas
carregava comigo todas as minhas conquistas

a pele do leão que matei
a carne me serviu de alimento
a pele me esquentou nas noites frias
e agora carrego-a como um troféu pela minha bravura

duas pedras, ambas em formato de coração
sendo uma mais achatada, como um coração pisado
outra mais redonda, um coração inchado
ainda não sei se foram escupidas por alguém que por ali passou
ou se foram as forças das natureza e intempéries que se encarregaram do serviço

um caderno, com anotações e desenhos
o registro subjetivo de um tempo
em que tudo era novo
e um simples olhar era motivo de encantamento

"todas as noites, depois de caminhar na montanha em busca de gravetos
atritava os dois corações de pedra até que deles saíssem faíscas
e uma singela fogueira surgia, um ponto de luz no alto"
assim estava descrito no caderno, o ritual que a mim acalentava

agora já estou embaixo
entrei num vale chamado realidade
a cada período de tempo, perco um dos objetos conquistados
"a existência deles só fazia sentido no alto da montanha"
é o que escrevo no caderno como forma de consolo

desde então, nada mais foi conquistado
nem mesmo corações de pedra
nem mesmo corações humanos
e no tempo existente entre uma perda e outra
ocupo meu corpo com o estado de inércia
um longo descanso, a espera do próximo outono



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

falsa mnemônica

não podemos afirmar nada
sobre o momento em que não estamos
e todas as conclusões são falhas
falha nº1
o "se mágico" me diz
devo agir como "se" fosse um deles
devo pensar como "se" estivesse ali
e se sou rei, devo andar como tal
organicamente no espaço
falha nº2
ainda não estou apto
o rei que tenho em meu imaginário
é minha interpretação sobre ser rei
nunca fui
e quando ajo como "se" fosse um
me baseio na segunda camada do "ser rei"
não tenho memória do que é ser
e assim antecipo a falha nº3

olhei para os registros que encontrei
fotos, cartas, mapas, desenhos, manuscritos, cálculos
eles são, por si próprios, a segunda camada do ser
o mapa me mostra a cidade mas não é a cidade
a carta registra o cotidiano sob um ponto de vista
eu leio e interpreto
e quando imagino minha vida nesse universo fantástico
é mais uma camada que me afasta da realidade
ainda sim, estou catalogando todos esses documentos
tomando-os como verdades
falha nº4
somo os valores novamente mas as contas não batem
falha nº5

todos os registros de cidades e vivências estão desatualizados desde o momento em que foram feitos.